Caqui vistoso, atemoia 'de sobremesa', wasabi fresco e uva mais doce que cana: por que Pilar do Sul se destaca por cultivos diferentes?

  • 28/06/2026
(Foto: Reprodução)
Por que Pilar do Sul é a terra dos 'cultivos diferentões'? Quem visita Pilar do Sul (SP), cidade com pouco mais de 25 mil habitantes e que fica a cerca de 150 quilômetros da capital paulista, tem a oportunidade de conhecer — e saborear — diferentes frutas e cultivos considerados "diferentões", como uvas muito doces, caquis vistosos, atemoia e até wasabi fresco. Mas será que existe uma explicação para o município se destacar em cultivos "exóticos"? O g1 conversou com o agrônomo Sérgio Masunaga, que vive na cidade e integra a Cooperativa Industrial APPC, que reúne a maioria dos produtores rurais do município. Segundo ele, o diferencial vai muito além de questões geográficas. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp "Na verdade, a questão de clima não faz tanta diferença assim, pois a região sudoeste do estado é muito parecida. Isso, na verdade, envolve muito o empenho dos produtores pilarenses em atender os desejos dos consumidores, que querem produtos diferenciados", pontua Sérgio. Uva é cultivada em Pilar do Sul (SP) APPC/Divulgação O empreendedorismo é um dos principais fatores que fazem Pilar do Sul se destacar no agronegócio regional. "Os empreendedores daqui gostam de buscar alternativas para a satisfação dos consumidores, sejam da cidade ou de fora. Geograficamente falando, não é algo que nos favorece. O clima e o relevo da cidade são iguais às outras. As frutas também são as mesmas que são cultivadas em outras regiões", descreve. O agrônomo também destaca a questão cultural que envolve Pilar do Sul. Assim como outras cidades próximas, o município teve forte influência dos costumes japoneses ao longo do processo de desenvolvimento. "Toda essa questão é muito voltada da cultura herdada por nós pilarenses, mostrada pelo povo nissei [filhos de imigrantes japoneses]. A entrega de frutas de extrema qualidade, em todos os seus aspectos, inclusive o sabor e o visual, é algo muito nosso", destaca. 'Sobremesa pronta' Atemoia é cultivada por Leandro Takahashi, em Pilar do Sul (SP) Arquivo pessoal Leandro Takahashi é um dos produtores de atemoia em Pilar do Sul. A cidade, inclusive, teve a primeira edição da festa voltada à fruta, que ocorreu entre 20 e 21 de junho. Segundo o produtor rural, a atemoia é um cruzamento genético entre a pinha e a cherimoia, que é uma espécie de pequeno porte proveniente das regiões andinas, como Bolívia, Equador e Peru. A fruta é produzida na propriedade dele há cerca de 30 anos. "A atemoia é um produto diferenciado quando falamos de sabor. Consideramos ela um fruto exótico, uma 'sobremesa pronta'. É uma fruta que está ficando cada vez mais conhecida e que tem sido bastante consumida", diz. LEIA MAIS: Produção leva anos e depende do frio: conheça o azeite orgânico produzido em fazenda do interior de SP que ganhou prêmio internacional Região de Itapetininga é responsável por 18% da produção de grama do Brasil, aponta pesquisa 'Fazenda Nossa Terra': propriedade de Sabrina Sato que fica no interior de SP produz café de forma sustentável Leandro conta que a safra da atemoia costuma acontecer a cada seis meses. Na propriedade dele, a variedade cultivada é a thompson, que possui diferenças na casca e no sabor, quando comparada a outros tipos. "A safra, ao menos em Pilar do Sul, começa em meados de abril e segue até novembro, então, é um período de poda bem longo. A atemoia tem bastante aceitação no mercado nacional e, também, no internacional. As pessoas gostam bastante pelo aroma e pelo sabor, principalmente da variedade thompson", relata. Para chegar ao considerado ponto perfeito, é necessário ter bons cuidados desde o preparo do solo. O produtor aponta que a atemoia é uma fruta sensível, que precisa de um manejo especial na hora de ser cultivada. "É uma planta relativamente sensível, que precisa de diversos tratos desde a poda, indo à adubação, usando os produtos certos para a cultura, que acabam melhorando o manejo e a eficiência. Se você almeja colher frutos bons, é importante fazer investimento. Isso vale para qualquer tipo de cultivo", reforça. Atemoia costuma ter período de poda longo Arquivo pessoal Leandro pontua que a fruta costuma ser vendida aos consumidores por R$ 2 o quilo. Na propriedade rural dele, a safra rende cerca de 150 toneladas, que podem ser classificadas de diferentes formas. "A atemoia tem vários tipos de classificação. Ela é vendida de acordo com o tamanho e com a beleza, então, é possível encontrar ela de R$ 2 a R$ 6 o quilo, variando conforme as características dela", explica. O produtor acredita, assim como o agrônomo, que o fato de a cidade produzir frutos de qualidade provém de questões culturais. Porém, ele acrescenta que o relevo da cidade não é apropriado para o cultivo de grãos, fazendo com que os produtores busquem alternativas. "É uma cidade que possui bastante influência oriental e é um povo que gosta de cultivar frutos diferentes. Mas também é uma atividade econômica e é o que dá retorno por aqui. O relevo da cidade é ondulado, então, isso não é bom para o cultivo de grãos, por exemplo", detalha. "Acredito que seja um conjunto de fatores. Como o agro é a maior movimentação da cidade, ela precisa se reinventar e inovar o tempo todo. As alternativas são necessárias para se destacar", completa. Caqui vistoso Tamon Morioka é coordenador de marketing da Cooperativa Industrial APPC e, também, é produtor de caquis na cidade. Neste ano, a fazenda dele ficou em primeiro lugar na competição da exposição de caquis da Feira e Exposição Agropecuária de Pilar do Sul (Feaps). O local costuma cultivar a variedade fuyu, que é conhecida pela sua polpa firme e crocante, semelhante à de uma maçã. Conforme Tamon, existem duas variedades da fruta: uma consumida mole e a outra dura. "Os cuidados com o caqui fuyu começam desde a brotação das primeiras folhas, pois são elas que darão energia para que o fruto cresça. A variedade rama forte é consumida de forma mole, enquanto o caqui fuyu é consumido duro", esclarece. Produção de caqui também impulsiona agronegócio em Pilar do Sul (SP) Reprodução/TV TEM O que chama a atenção nos caquis "campeões" é o tamanho. Tamon explica que, durante o cultivo, é feito um processo chamado tekirai, que consiste no raleio das flores, fazendo com que os frutos cresçam ainda mais. "Depois da florada, é só cuidar para que pragas e doenças não afetem o pé de caqui. A safra do caqui fuyu começa em meados de fevereiro e vai até o final de abril. Uma das características importantes é que a colheita é feita de forma 100% manual", pontua. Assim como grande parte dos produtores rurais da cidade, a fazenda de caqui da família Morioka começou com os nisseis da cidade. A produção começou em 1996, época em que, segundo Tamon, a fruta estava em ascensão. "A produção começou com o meu avô e com o meu pai. Foi nessa época que a APPC surgiu, mas, infelizmente, a comercialização com o Japão não deu certo. Utilizamos as técnicas japonesas até hoje e, assim, conseguimos produzir frutos grandes e de boa qualidade", revela. Caquis chamam a atenção pelo tamanho e cor Prefeitura de Pilar do Sul/Divulgação Segundo o produtor, o preço médio do caqui fuyu varia entre R$ 3 e R$ 4 o quilo. A propriedade rural chega a colher entre 15 e 20 toneladas da fruta por hectare, com parte da produção destinada à exportação. "Como temos o certificado Global Gap, seguimos uma linha de controle de produção rigorosa. Nossos técnicos e engenheiros estão sempre nos orientando e ajudando para que todos tenhamos caquis de excelência, focados para a exportação", compartilha. Com relação ao cultivo geral da cidade, a opinião de Tamon é semelhante à de Sérgio e Leandro. Ele revela que, frequentemente, os produtores conseguem apoio do governo japonês para ensinar novas técnicas e processos de produção. "Pilar do Sul tem uma comunidade japonesa muito forte, incluindo a nossa cooperativa. Conseguimos apoio do governo do Japão, que sempre envia profissionais da área agrícola para ensinar sobre novas técnicas e processos de produção. Eles também recebem os nossos cooperados e colaboradores no país para que eles possam aprender sobre. Sempre procuramos diversificar nossa produção, saindo do convencional e inovando com novos produtos", descreve. Uva mais doce que cana Pilar moscato é conhecida na cidade onde é cultivada APPC/Divulgação A uva pilar moscato chama atenção logo pela aparência: os frutos são bem maiores do que os de uma uva convencional. Tamon explica que a variedade é patenteada pela associação por diversos motivos. Entre eles, aspectos do manejo que não são divulgados publicamente. "Ela apareceu na cidade depois de um pesquisador japonês vir para cá, trazendo materiais e colocando na área experimental da cooperativa. A uva surgiu, provavelmente, por adaptação e polinização cruzada. A pilar moscato se destacou tanto que virou uma marca registrada da APPC", conta. A uva, de acordo com Tamon, é considerada uma variação recente. Ela começou a ser produzida em 2008, comercializada em 2011 e, atualmente, é exportada para diferentes locais do mundo, como Ásia, Europa e Oriente Médio. "É uma produção exclusiva nossa. Trabalhamos bastante com o mercado interno, mas também exportamos ela para diversas localidades, como o Canadá, diversos países da Europa, para a Ásia e também a região dos Emirados Árabes Unidos", detalha. No entanto, o produtor revela que nem todas as uvas cultivadas chegam ao padrão exigido para a fruta ser considerada da categoria pilar moscato. Para isso, os profissionais avaliam minuciosamente diversas características, como o tamanho do cacho e o Brix, escala que mede a quantidade de açúcar. Uva é patenteada e pode custar R$ 200 o quilo APPC/Divulgação "Nós colhemos a pilar moscato somente quando o Brix dela aponta em 18%. O normal de uma uva, como a variedade itália, é de 14%. É uma boa diferença. Para se ter uma ideia, uma vez eu medi a cana-de-açúcar e o resultado foi 16%. Ela é mais doce que a cana. O tamanho também é um padrão. Só classificamos como pilar moscato se o fruto for maior que 24 milímetros", explica. Apesar de a patente pertencer à Cooperativa APPC, variedades semelhantes têm sido comercializadas. Segundo Tamon, a uva é uma fruta de fácil multiplicação e, com acesso aos galhos da planta, outras pessoas conseguiram cultivá-la. "Existe a uva sweet moscato, que também é criada em Pilar do Sul. As pessoas entravam na propriedade de um cooperado e pegavam o galho sem a autorização. É a partir dele que a uva se multiplica. Ela é vendida com outro nome por conta da patente", finaliza. O único wasabi fresco da América Latina Planta é cultivada de forma comercial em Pilar do Sul (SP) Arquivo pessoal Vinícius Shizuo Abuno é proprietário da única produção em escala comercial de wasabi fresco em toda a América Latina. Por curiosidade, ela também fica em Pilar do Sul, em uma área de 2 mil metros quadrados. O produtor explica que, na verdade, o wasabi é uma planta difícil de ser cultivada. Para ela crescer de maneira saudável, é necessária uma condição do solo e de clima muito específica semelhante à do país asiático. "Precisamos de um cultivo com água corrente e bem gelada. Precisa ser um local com água em abundância e extremamente limpa e, mesmo assim, a safra demora muito para crescer. É uma planta bem delicada e precisa de muito cuidado", explica. Com o passar do tempo, o produtor rural acabou desenvolvendo e adquirindo tecnologias para aumentar o ritmo e quantidade. A safra demora dois anos para ficar no ponto de colheita, que normalmente é feita no frio. Por conta disso, eles investiram em ambientes climatizados artificialmente para garantir wasabi o ano todo. "Nós acabamos investindo demais em infraestrutura, conseguindo uma regularidade por conta dela, já que o desafio maior é enfrentar o verão. Há épocas muito quentes em que acabamos perdendo a planta, que sofre muito para se desenvolver em períodos assim", pontua. Segundo Vinícius, a propriedade rural vende entre 10 e 15 quilos de wasabi fresco por mês para clientes de diferentes localidades do país. O preço do quilo varia de R$ 6 mil a R$ 10 mil, dependendo da qualidade da planta. "Nós fazemos entregas uma vez por semana na capital paulista e, para outras regiões do país, despachamos via transporte aéreo. É um produto delicado, caro, que precisa ser ralado no momento do consumo", destaca. Ao g1, o prefeito de Pilar do Sul, Clayton Machado (Republicanos), destacou que a diversidade de cultivos fortalece a economia do município. "Ao longo de todo o ano, conseguimos produzir uma grande diversidade de frutas, incluindo espécies exóticas que movimentam a economia, geram oportunidades e agregam valor à nossa produção rural. Essa capacidade de produzir de forma diversificada é um dos grandes diferenciais da nossa cidade e motivo de orgulho para todos nós." Vinícius produz wasabi fresco há oito anos Arquivo pessoal Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/2026/06/28/caqui-vistoso-atemoia-de-sobremesa-wasabi-fresco-e-uva-mais-doce-que-cana-por-que-pilar-do-sul-se-destaca-por-cultivos-diferentes.ghtml


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