Colunistas avaliam derrota histórica do governo Lula na rejeição de Messias para o STF
29/04/2026
(Foto: Reprodução) A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal pelo Senado foi interpretada como a maior crise política do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — e uma das mais graves de toda a sua trajetória no poder.
No jornal Edição das 18h, da GloboNews, Natuza Nery, Gerson Camarotti, Elisa Clavery, Ana Flor e Fernando Gabeira apontaram falhas de articulação do governo, avanço do Centrão e impactos eleitorais do episódio.
Para Camarotti, a derrota expõe um erro estratégico que remonta ao início do processo, há cinco meses. Segundo ele, integrantes do próprio governo já avaliavam que Lula deveria ter negociado de forma mais clara com o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, quando a vaga surgiu.
O advogado-geral da União Jorge Messias participa de sabatina realizada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado por uma vaga ao Supremo Tribunal Federal (STF), no Congresso Nacional, em Brasília (DF), nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026
Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Agora, o presidente se vê diante da dificuldade de emplacar qualquer outro nome, sem uma base consolidada no Senado. "A conferir como o presidente Lula vai fazer sua indicação, quando vai fazer. Ele está sabendo que não tem força para aprovar o nome de ministro do Supremo", disse Camarotti.
O colunista também destacou que o placar elástico só foi possível com a adesão de forças além da oposição, especialmente sob influência de Davi Alcolumbre. O movimento, segundo ele, combina interesses eleitorais — com parlamentares já em clima de campanha — e um discurso político mais amplo de enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal.
"O discurso que vai sair daqui desse plenário por parte da oposição é: fizemos o primeiro impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal". Lógico que isso não é impeachment, mas é um discurso político contra o Supremo, que vai contaminar o pleito eleitoral desse ano", disse o comentarista.
Natuza Nery ressaltou o peso político direto sobre Lula. Para ela, mais do que uma derrota de Messias, trata-se de uma derrota pessoal do presidente, imposta em grande medida por Alcolumbre. Com 42 votos contrários e apenas 34 favoráveis, o resultado foi classificado por integrantes da base como “gigantesco” e gerou apreensão entre aliados.
Fontes ouvidas por Natuza avaliam que fatores como o “caso Master” podem ter influenciado o comportamento de senadores, especialmente do Centrão, diante do temor de investigações.
"Eu estou conversando com um importante integrante da base lulista, que chama essa derrota de derrota gigantesca. Essa fonte diz, apontando o dedo para Davi Alcolumbre, que essa turma está muito apavorada em relação ao caso Master", disse Natuza.
Elisa Clavery apontou falhas na contagem de votos e um ambiente de traição política. Segundo ela, o governo trabalhava com um cenário muito mais apertado e foi surpreendido pela margem da derrota. Relatos de bastidores indicam que senadores teriam sinalizado apoio ao governo, mas votado em sentido contrário, evidenciando fragilidade na coordenação política.
"O que tem aí é traição. Gente que fez jogo duplo, que disse para o governo, ou para o Messias, que ia votar a favor dele, mas que já estava combinado com Davi Alcolumbre, com o Centrão, e também com a oposição", comentou Clavery.
Ana Flor comparou o episódio com momentos anteriores de desgaste entre Executivo e Senado, como a rejeição de um indicado a embaixador no governo Dilma Rousseff, em 2015.
"Lula pode indicar um outro nome, mas qual a chance desse nome ser aprovado se não for combinado com o centrão ou com lideranças do Senado?", questionou Flor.
Segundo ela, o caso atual sinaliza um afastamento significativo do Centrão, tradicional fiador da governabilidade. Esse distanciamento, somado à celebração da oposição com a rejeição de Messias, indica não apenas uma derrota institucional, mas também um enfraquecimento político mais amplo do governo.
Já Fernando Gabeira chama atenção para a dimensão interna da crise. Ele avalia que houve uma falha grave da equipe responsável pela articulação, não apenas por perder a votação, mas por não prever um resultado dessa magnitude. Para o comentarista, seria papel dos articuladores identificar a fragilidade do apoio.
"As pessoas que estavam articulando em nome do governo fracassaram profundamente. Não no sentido de perder, porque perder é humano, mas não prever que haveria uma derrota desse tipo e, de uma certa maneira, poupar o presidente da República", disse Gabeira.
Ele pondera, contudo, que a derrota no Senado não deve ser automaticamente interpretada como reflexo da opinião popular. "É importante a gente observar que foi algo que aconteceu dentro da elite política, do Centrão e de outros grupos, mas esse tema não foi vivido pela população", destacou o comentarista.
Para os comentaristas, o governo terá de se reorganizar rapidamente, porque a derrota inédita na indicação de um ministro do STF — algo que não ocorria desde o século XIX — coloca em xeque a capacidade de articulação do Planalto, pressiona a relação com o Senado e impõe novos desafios tanto para a governabilidade quanto para a estratégia eleitoral de Lula.