Como está o condomínio contaminado por substâncias cancerígenas prestes a completar 25 anos sem solução em Campinas

  • 18/05/2026
(Foto: Reprodução)
Contaminação em condomínio em Campinas chega a 25 anos sem solução e moradores reclamam Um quadro pendurado no hall de entrada do Bloco A mostra como seria parte do Condomínio Parque Primavera, na Rua Hermantino Coelho, no bairro Mansões Santo Antônio, em Campinas (SP): área de lazer, parque infantil, piscina e espaços de convivência entre moradores. Ao olhar a imagem e observar no entorno o que saiu do papel é possível perceber que seria um empreendimento projetado para famílias de classe média alta, aproveitando o potencial de uma região da cidade próxima a shopping e universidades. Esse cenário mudou em 25 de outubro de 2001, quando a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) interditou as obras do condomínio por conta de uma contaminação de substâncias cancerígenas. Das oito torres previstas, três foram construídas e apenas uma está habitada por cerca de 150 pessoas. A realidade contrasta com o quadro: apenas o estacionamento e um salão de festas foram feitos, já que a perfuração do solo é proibida. O problema ambiental irá completar 25 anos e segue sendo discutido pelas autoridades envolvidas, que se reuniram em abril para mais uma tentativa de solução. O g1 visitou o condomínio, conversou com moradores e teve acesso aos blocos interditados. Nesta reportagem, você vai saber (e relembrar): Qual a contaminação e como começou? Como está a usina de extração de gases? Como estão os blocos interditados? Peso no bolso dos moradores Revolta dos donos de imóveis interditados O que falta para descontaminar? O que dizem as autoridades? Quadro na entrada do Bloco A mostra como seria a área de lazer do Condomínio Parque Primavera Estevão Mamedio Qual a contaminação e como ela começou? Segundo a Cetesb, as substâncias detectadas são etanos e etenos clorados, presentes no solo, em vapores do solo, água subterrânea e ar ambiente. Esses compostos são capazes de causar câncer e evaporam com facilidade. A origem da contaminação é atribuída à indústria Proquima Produtos Químicos Ltda, que funcionou no local entre 1973 e 1996 e tinha como principais atividades a recuperação de solventes e a fabricação de produtos de limpeza. De acordo com a Cetesb, existem evidências de que a Proquima descartava resíduos gerados pela empresa em “poços sumidouros”. Nesses poços, o esgoto se infiltrava no solo e atingia águas subterrâneas. Além disso, em 9 de abril de 1987, ocorreu um incêndio nas dependências da empresa que causou derramamento de produtos químicos. A contaminação se estende por diversas quadras, chegando, inclusive, à margem oposta de um córrego entre a Rua Clóvis Teixeira e a Rua José Luis de Camargo Moreira. Centro da contaminação fica em área de mata, ao lado do condomínio Estevão Mamedio Os lotes que consistiam na Proquima foram vendidos à Concima S. A. Construções Civis em 1998, que projetou o condomínio e construiu parte dele até as obras serem interditadas. A partir daí, começaram estudos para descontaminação. Ainda foram estabelecidas algumas restrições aos moradores, como a de não perfurar o solo. Em 2008, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) foi firmado entre Prefeitura de Campinas, o Ministério Público do Estado (MP-SP), Concima e Cetesb com diversas ações para o caso. Há, inclusive, uma sentença que obriga a criação de um plano de remediação da área. Como está a usina de extração de gases? "Portinhola" apertada no estacionamento do condomínio leva a um espaço subterrâneo, onde está a usina de extração de gases Estevão Mamedio Outra medida para descontaminação foi a implantação de uma usina de extração de gases, no subsolo de um dos blocos interditados. A estrutura foi inaugurada em junho de 2014. O sistema consiste em quatro motores, que são regulados por meio de inversores, e puxam gases e substâncias do centro da contaminação. Por meio de encanamentos, o conteúdo extraído é levado a tanques com carvão ativado, que retém os etanos e etenos clorados. Depois de passar pelos tanques, o ar, já limpo, é liberado para a atmosfera. A Prefeitura de Campinas ficou responsável pela usina até outubro de 2020, quando foi entregue ao condomínio. Também foram concluídos estudos e apresentados à Cetesb. No entanto, o sistema não funciona há cerca de dois meses por conta de dois inversores danificados. O risco de queimar os demais equipamentos fez com que o síndico, Itamar Rabanera, de 75 anos, desativasse a estrutura e cobrasse da prefeitura o valor da manutenção: R$ 10 mil. Usina é responsável por extrair gases do centro da contaminação Estevão Mamedio Segundo o síndico, o condomínio não tem condições de manter a usina e citou, como exemplo, o custo da troca do carvão ativado — necessária depois de um tempo —, que chega a R$ 80 mil. "São 50 apartamentos, 50 proprietários que têm de manter tudo isso daqui limpo e têm de cuidar das duas torres, porque não podemos abandonar. Hoje, o condomínio mais caro que tem na região das Mansões Santo Antônio é o nosso, que pouco oferece para os moradores", justificou. A prefeitura diz que "a responsabilidade do passivo ambiental permanece com a construtora [Concima]. Existe um processo em andamento para cobrar da empresa o ressarcimento dos recursos públicos investidos na área". Como estão os blocos interditados? Blocos B e C estão interditados há 25 anos pela Cetesb Estevão Mamedio Embora os blocos interditados estejam fechados há 25 anos, estão estruturalmente perfeitos, sem avarias. A exceção é a parte de fiação elétrica, furtada logo após a obra ter sido embargada, em 2001. Apesar da sujeira, os apartamentos estão conservados, sem sinais de vandalismo. Alguns deles, inclusive, estão com paredes pintadas na cor branca — e o que chama a atenção: em perfeito estado. Ao redor dos blocos, há mato alto, mas não a ponto de o local se tornar inacessível. A reportagem conseguiu, por exemplo, transitar entre as torres sem grandes problemas. Por outro lado, o terreno vizinho, onde está o centro da contaminação e onde ficariam quatro blocos do condomínio — conforme projeto inicial —, já tem diversas árvores e canaletas para conter a contaminação em dias de chuva. Mas a manutenção e, inclusive, a segurança das torres interditadas — que às vezes são alvos de tentativas de invasão — têm um custo: o condomínio elevado (quase R$ 1 mil) para quem reside no Bloco A. Pesa no bolso, diz morador Fios foram furtados logo após a interdição, mas blocos seguem em boas condições Estevão Mamedio O advogado e morador Roberto Sundberg Guimarães Filho, de 61 anos, disse que a situação "pesa no bolso". "Sempre pesou, né? Não tenho medo da contaminação porque eu moro aqui há mais de 20 anos e nunca vi caso de alguém que teve algum problema. Mas a questão de segurança preocupa a todos porque tem duas torres que têm de ficar sob vigia", relatou. A questão financeira acentua a controvérsia entre o bloco liberado e os interditados. Afinal, são apenas dez passos que separam a única torre habitada há mais de duas décadas e a vizinha interditada. "Como leigo, estou aqui desde 1998. Nunca vi uma pessoa doente por contaminação. Já nasceram um monte de crianças, nunca uma ficou doente. Eles sabem que a contaminação está a 15 metros do solo, mas não liberam as torres", reclamou o síndico Itamar Rabanera, de 75 anos. Revolta dos donos de apartamentos interditados Outro ângulo de condomínio que fica sobre contaminação em Campinas A liberação dos blocos interditados parece distante, o que deixa o analista de sistemas Ricardo Alves Fernandes, de 57 anos, proprietário desde 1997 de um apartamento no Bloco C, desesperançoso. "Não tenho esperança [de morar], mas não acho que foi dinheiro perdido", afirmou. "Há muito tempo, quando ainda tinham as reuniões na Câmara, eu falava assim: 'acho que isso aí vai demorar, isso aí vai ser para pagar a faculdade da minha filha'. Na época, minha filha tinha uns 10 anos. Minha filha já está no segundo ano da faculdade e até agora nada", completou. Fernandes reclama que outros empreendimentos foram aprovados em áreas vizinhas ao Parque Primavera. "Os gases sabem que as pessoas não podem atravessar a rua e não podem subir para o condomínio de cima nem descer para o de baixo? Porque eles aprovaram", ironizou. "A sensação que eu fico é assim: ninguém quer fazer, então todo mundo pede um estudo a mais, uma análise a mais. Para quê? Para empurrar com a barriga", disparou. "Hoje em dia a gente já está meio anestesiado, né? Já passou bastante tempo. Mas é muita revolta mesmo, sabe? Porque é uma história que, na verdade, existe um conjunto de culpados. Nós, compradores, somos os menos culpados. Acho que a única culpa que a gente tem é de não ter feito mais estardalhaço, pressionado mais", completou. Alguns desses proprietários entraram em acordo com a Concima para terem um mínimo de respaldo: a escritura do imóvel em troca de entrar com um processo de embargo contra o processo de falência da empresa. O embargo não adiantou e a companhia teve a sua falência decretada pela Justiça em 7 de abril de 2022. Fernandes participou do acordo e tem, hoje, a escritura do seu apartamento. "Talvez dê para recuperar alguma coisa por conta da escritura, única e exclusivamente por conta disso", afirmou. Com o possível leilão do condomínio para pagamento da massa falida da Concima, o futuro comprador teria de negociar com os únicos proprietários que têm suas escrituras. Uma situação hipotética que pode se arrastar por mais anos. "Não é fácil. É uma luta que estão travando há 20 anos. Pessoas já desistiram, pessoas já morreram, mas existe um grupo, um grupo muito forte, que está se mobilizando. Gente, são 20 anos que em um ano é a prefeitura que dá desculpa, no outro ano é a Cetesb", comentou Rabanera. O que falta para descontaminar? Imagem aérea do local e gráfico com a extensão da contaminação Reprodução/Cetesb Em 2 de abril deste ano, uma reunião foi realizada com representantes da Cetesb e da Prefeitura de Campinas para tentar "destravar" as torres interditadas. No entanto, o encontro terminou sem uma conclusão. De acordo com a Prefeitura, após aprovação de um plano de remediação da área, solicitado pela Cetesb, a administração irá participar da viabilização de recursos para a descontaminação, por meio de contrapartidas urbanísticas de futuros empreendimentos. Até lá, a contaminação persiste e representa risco à saúde. Por esse motivo, as demais torres seguem sem autorização para ocupação. O mesmo é defendido pela Cetesb, que diz que os blocos interditados continuam sem liberação "por não atenderem aos padrões de segurança". O que diz a Prefeitura de Campinas O processo de descontaminação de áreas contaminadas é complexo, envolve diversas etapas técnicas, estudos ambientais, aprovação de metodologias, execução de medidas de remediação e acompanhamento contínuo dos órgãos ambientais. É importante ressaltar que a Prefeitura acompanha o caso, mas não é a responsável direta pela execução da descontaminação. Diante do risco à saúde pública e da relevância da área para o desenvolvimento da cidade, a Prefeitura iniciou, em 2014, estudos de descontaminação e colocou o sistema de extração de gases para funcionar. Os recursos utilizados foram provenientes de termos de compromisso ambiental. A Prefeitura vai cobrar da construtora o ressarcimento dos recursos públicos investidos na área. Já, a destinação dos resíduos [carvão ativado], segundo a legislação ambiental, deve ser feita pela mesma empresa que foi contratada para operar o sistema. O que diz a Cetesb A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) informa que acompanha o referido caso e que as torres interditadas permanecem sem liberação por não atenderem aos padrões de segurança necessários para a liberação de uso residencial. A área, anteriormente ocupada por uma empresa do setor químico, ainda depende de novas investigações de solo e vapores, além de medidas de remediação. A fim de garantir a segurança da população, a ocupação da área só ocorrerá após a conclusão das intervenções necessárias e a comprovação de que os riscos ambientais estão devidamente controlados. Atualmente a Cetesb mantém diálogo constante com a Prefeitura de Campinas e a associação de moradores da região para orientar os trabalhos necessários, incluindo a contratação de novos estudos ambientais e a execução das ações de remediação. Torres interditadas por conta de contaminação, no Condomínio Parque Primavera, em Campinas Estevão Mamedio Veja mais notícias da região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/05/18/como-esta-o-condominio-contaminado-por-substancias-cancerigenas-prestes-a-completar-25-anos-sem-solucao-em-campinas.ghtml


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