Como funcionava esquema suspeito de desviar milhões com 'obras fantasmas' no tapa-buracos de Campo Grande
13/05/2026
(Foto: Reprodução) Ex-secretário de obras de Campo Grande é preso em operação contra desvios no tapa-buracos
A Justiça manteve, nesta quarta-feira (13), a prisão preventiva de sete investigados na Operação "Buraco Sem Fim", que apura um suposto esquema de fraude no serviço de tapa-buracos em Campo Grande. Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), o grupo manipulava medições para que a prefeitura pagasse por obras não executadas.
Conforme o documento obtido com exclusividade pela TV Morena, o grupo fraudava medições de serviços para que a Prefeitura de Campo Grande pagasse por obras não feitas ou pagasse valores acima do correto. Conforme os promotores, o dinheiro era desviado para beneficiar empresários e servidores envolvidos.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp
Como funcionava o suposto esquema
Todos os sete investigados na Operação 'Buraco Sem Fim' continuarão presos preventivamente.
Eduardo Almeida/ TV Morena
Conforme o MPMS, a Prefeitura de Campo Grande contratava empreiteiras para fazer o serviço de tapa-buracos porque não teria estrutura suficiente para manter as ruas com equipes próprias.
A investigação tem como foco contratos firmados com a Construtora Rial. Dados do Portal da Transparência apontam que a empresa tem oito contratos ativos com a administração municipal, que somam quase R$ 148 milhões. O período analisado vai de 2018 a 2025.
Segundo os promotores, o ex-secretário municipal de Obras, Rudi Fioresi, seria o principal elo político do esquema. Conforme a investigação, ele mantinha ligação direta com empresários e teria recebido vantagens financeiras para favorecer a empresa por meio de fraudes nas medições.
O Ministério Público também afirma que a perícia identificou ganhos de Rudi Fioresi sem comprovação de origem. Os valores seguem sob sigilo.
Justiça mantém prisão de alvos da operação Buraco Sem Fim
Empresários e estrutura da empresa
A investigação aponta Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa como dono de fato da Construtora Rial. O filho dele, Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa, aparece como proprietário formal no contrato social da empresa.
Funcionários ouvidos pelo Ministério Público relataram que a empresa teria uma estrutura precária. Eles também disseram que o serviço prestado era de má qualidade.
Manipulação de medições e planilhas
Segundo os promotores, o esquema funcionava por meio da manipulação de medições feitas pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), responsável pelo tapa-buracos.
Ainda conforme a investigação, o coordenador das operações de tapa-buracos, Edvaldo Aquino, e o engenheiro Mehdi Talayeh, ambos da Sisep, atuavam orientados por Rudi Fioresi. Segundo o MPMS, eles combinavam valores com empresários e manipulavam medições para que a prefeitura pagasse mais ou pagasse por serviços não realizados.
O MPMS afirma que os dois repassavam as ordens da fraude aos servidores Fernando de Souza Oliveira e Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula. Segundo a investigação, eles alteravam planilhas usadas para calcular os pagamentos.
LEIA TAMBÉM
Ex-secretário de obras de Campo Grande é preso em operação contra desvios no 'tapa-buracos'
Justiça mantém prisão de Rudi Fioresi e outros 6 investigados por suposto desvio de R$ 113 milhões
Valor desviado e dinheiro encontrado
O total que teria sido desviado continua sendo calculado pela perícia. Até agora, uma parte do prejuízo estimado pode chegar a R$ 5 milhões, mas investigadores acreditam que o valor seja maior.
Durante o cumprimento dos mandados de prisão e de busca e apreensão, o Ministério Público informou que encontrou R$ 500 mil em dinheiro. Também foram apreendidos documentos, celulares e equipamentos eletrônicos em casas de suspeitos e em setores da prefeitura ligados à manutenção das ruas.
As prisões foram solicitadas porque, segundo os investigadores, o esquema ainda estaria em funcionamento até a data da operação.
Exonerações e defesa dos investigados
Nesta quarta-feira, Rudi Fioresi, que ocupava o cargo de diretor-presidente da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), foi exonerado pelo governador Eduardo Riedel.
Os outros investigados que trabalhavam na Prefeitura de Campo Grande também foram afastados dos cargos.
A defesa de Fernando de Souza Oliveira e Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula negou a participação dos dois no esquema.
A defesa de Rudi Fiorese afirmou que a prisão preventiva é “desarrazoada” e disse que a medida não condiz com a trajetória do ex-diretor da Agesul. Os advogados também alegaram que, mais de 24 horas após a operação, ainda não tiveram acesso aos autos do processo, o que, segundo a defesa, compromete o direito à ampla defesa e dificulta o questionamento judicial da prisão. A defesa informou ainda que irá buscar a liberdade de Fiorese pelos meios legais.
Investigados já haviam sido alvo de outra operação
Parte dos investigados já havia sido alvo da operação “Cascalhos de Areia”, realizada em 2023. Na época, o Ministério Público investigava um suposto esquema de fraude em licitações e contratos ligados à manutenção de vias não pavimentadas da Capital.
Segundo as investigações daquela operação, empresas específicas venceriam licitações em sistema de rodízio e, depois, servidores públicos da Sisep receberiam propina para superfaturar contratos.
Na ocasião, Rudi Fiorese, Mehdi Talayeh e Edvaldo Aquino também foram investigados.
Em nota, a Prefeitura de Campo Grande informou que os contratos investigados são referentes à manutenção de vias pavimentadas firmados desde 2017, em gestão anterior. Já o Ministério Público afirma que as apurações envolvem contratos e aditivos assinados entre 2018 e 2025.
Já a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso do Sul (Seilog) informou que o governo estadual não é alvo da investigação e que Rudi Fiorese é investigado por fatos relacionados ao período em que atuou na prefeitura.
"A Seilog esclarece que tomou conhecimento da operação, que apura contratos do Município de Campo Grande, e que não é alvo da investigação. O diretor-presidente da Agesul figura por sua atuação anterior na Secretaria de Obras da Capital, período ao qual a investigação se restringe. A Seilog, comprometida com lisura e transparência na administração pública, acompanha o desenrolar da investigação, e já tomou as providências necessárias, com exoneração do servidor".
Veja vídeos de Mato Grosso do Sul