Conheça a cidade do Amazonas que separa o Brasil da Colômbia por uma avenida

  • 16/05/2026
(Foto: Reprodução)
A cidade no AM que separa o Brasil da Colômbia por uma rua A cidade de Tabatinga, no interior do Amazonas, desafia as noções tradicionais de fronteira. Por lá, a divisão entre o território brasileiro e a cidade de Letícia, na Colômbia, não é feita por muros ou rios intransponíveis que separam os dois países, mas sim por uma simples via: a Avenida da Amizade. Nesta fronteira seca, o vaivém de pedestres e motoristas é constante e não exige documentação, revista ou qualquer tipo de burocracia para que se entre ou saia dos dois países: basta atravessar a rua. No local, apenas um letreiro simboliza essa divisão, que só divide mesmo na teoria. Na prática, a integração é tão profunda que pesquisadores a definem como uma "cidade gêmea" ou um organismo urbano único. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp "A fronteira não é apenas um limite político-administrativo, mas um espaço vivido, onde as identidades se misturam e as práticas cotidianas ignoram as linhas dos mapas", destaca o sociólogo e pesquisador, José Albuquerque. Essa dualidade é sentida no comércio: de um lado, o português e o real; do outro, o espanhol e o peso colombiano. Na comunicação, o "portunhol" é a língua franca que domina as interações sociais. Mas se engana quem pensa que isso gera problemas para quem vive no local. A professora de espanhol e Miss Tabatinga, Maria Rita, define a vivência na região como uma experiência que ignora as divisões cartográficas tradicionais. Para ela, a fronteira é sentida mais pela cultura do que pela burocracia. "Viver na tríplice fronteira é experimentar uma geografia que desafia os mapas. Na prática, a fronteira é invisível na rotina. Atravessar a rua não é um ato burocrático de mudar de país, é um movimento natural de quem vive em um organismo único, onde Tabatinga e Letícia funcionam como bairros de uma mesma grande metrópole amazônica", afirma Maria Rita. Maria ainda diz que a condição de "cidade gêmea" reflete não apenas a proximidade física, mas uma estrutura mental diferenciada para quem nasce na região. Ela explica que a identidade de quem vive no extremo Oeste do Amazonas é ampliada pelo convívio binacional. "Eu me sinto profundamente brasileira, mas ser de Tabatinga é possuir uma singularidade que o restante do país nem sempre compreende: eu sou uma brasileira da fronteira. Como pesquisadora, entendo que o cidadão que nasce e cresce aqui desenvolve uma estrutura cognitiva e cultural diferenciada. Nosso olhar para o mundo é mais 'elástico', porque fomos alfabetizados nesse contexto linguístico e pela convivência com o outro", ressalta. Veículo do exercito brasileiro com as bandeiras brasileiras e colombianas. Lucas Macedo/g1 Amazonas Desafios e potencialidade Segundo José Albuquerque, apesar da riqueza cultural e da posição estratégica, a cidade enfrenta desafios proporcionais à sua complexidade. A segurança pública e a logística de transporte, que depende quase exclusivamente do Rio Solimões ou de voos, são temas recorrentes nas pesquisas acadêmicas locais. Por outro lado, o potencial turístico é vasto. Quem visita Tabatinga pode: Cruzar a fronteira a pé: basta caminhar pela Avenida da Amizade para trocar de país em segundos. Explorar o Rio Solimões: passeios de barco que conectam comunidades indígenas e áreas de preservação. Gastronomia mista: saborear desde o tacacá amazonense até a famosa patarashca colombiana, prato típico a base de peixe. Maria Rita ressalta que o acesso a serviços e opções de lazer em Letícia, na Colômbia, é feito sem burocracias, o que torna a rotina dos moradores mais diversificada. Para ela, a cidade vizinha funciona como uma extensão do quintal de casa. "O acesso ao lazer e aos serviços na fronteira é vivido com total naturalidade. Não vemos como 'ir a outro país', mas como aproveitar o que a nossa cidade vizinha oferece de melhor. É uma dinâmica muito simples e funcional: usufruímos da gastronomia e da cultura de Letícia com a mesma facilidade com que circulamos em Tabatinga", destaca Maria Rita. Além da vizinhança terrestre com a Colômbia, Tabatinga também estabelece o limite do território brasileiro com o Peru. No entanto, a dinâmica com os peruanos ganha um contorno diferente: em vez de uma rua, a fronteira é ditada pelas águas do Rio Solimões. A travessia para a ilha de Santa Rosa, a localidade peruana mais próxima, é feita em poucos minutos por meio de pequenas embarcações, conhecidas na região como "peque-peques". Porta de entrada para tráfico internacional de drogas Tabatinga também sofre com ações de organizações criminosas, a cidade apontada por estudos como o ponto inicial da chamada “Rota do Solimões”, um dos principais corredores de tráfico internacional de drogas na Amazônia. Devido a localização, a cidade funciona como porta de entrada da cocaína produzida nos países vizinhos, que segue pelos rios até Manaus e depois para outras regiões do Brasil e do exterior. A vulnerabilidade social e a ausência de fiscalização permanente tornam o território estratégico para facções criminosas. De acordo com o estudo Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) disputam o controle da região, aproveitando-se da extensa fronteira fluvial e da circulação livre entre Tabatinga, Letícia, e Santa Rosa, no Peru. A dinâmica na fronteira entre os territórios também proporcionou com que organizações criminosas brasileiras expandissem a atuação com dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Em entrevista ao g1, o coronel colombiano Rodriguez Contreras Carlos detalhou que facções como o CV e o PCC mantêm parcerias estratégicas com guerrilheiros para o controle de crimes ambientais e o tráfico de drogas na região de fronteira. "Esses grupos estão presentes na região fazendo negocio, narcotráfico, garimpo ilegal. Essas estruturas, esses grupos já ultrapassaram fronteiras", afirmou. Mesmo com as problemáticas, a via que une Brasil e Colômbia ainda consegue fazer sobressair na rotina dos moradores o significado que carrega no nome: a amizade entre duas nações. LEIA TAMBÉM: Dissidentes das Farc e facções brasileiras aliam-se por controle de crimes na Amazônia, diz coronel do exército colombiano Facções transformam crimes ambientais em nova fronteira do poder no Amazonas Militares usam balaclava nas fiscalizações para se protegerem do crime organizado. Lucas Macedo/g1 Amazonas Entrada de Tabatinga na fronteira com a Colômbia Lucas Macedo/g1 Amazonas Placa que marca o encontro entre Letícia e Tabatinga. Lucas Macedo/g1 Amazonas

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/05/16/conheca-a-cidade-do-amazonas-que-separa-o-brasil-da-colombia-por-uma-avenida.ghtml


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