Estudo usa bromélias para medir poluição em cidades brasileiras; veja como funciona
01/05/2026
(Foto: Reprodução) Registro, SP, participa de pesquisa que usa bromélias para avaliar a poluição
Uma bromélia (Tillandsia usneoides) pendurada em uma árvore pode não ser apenas um simples arranjo. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) tem usado a planta para medir a poluição de 12 cidades brasileiras.
Ao g1, a professora e doutora Natália Cristina de Oliveira, da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru (SP), explicou que a bromélia não absorve nutrientes do solo, então faz a captação diretamente da atmosfera. Por isso, a planta tem sido utilizada como um biomonitor natural da qualidade do ar.
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"Elas funcionam como 'filtros vivos' [...]. Isso permite mapear onde a poluição está mais concentrada e como ela se dispersa no território urbano, servindo como ferramenta ambiental para fomentar políticas públicas de equidade e promoção de saúde", afirmou a professora.
Bromélia monitorando a qualidade do ar em Registro, SP
Prefeitura de Registro/Divulgação
Entenda como a bromélia é utilizada na prática, de acordo com Natália:
🌳No estudo, as plantas são expostas ao ar em regiões com diferentes condições socioeconômicas e históricos de urbanização. Por exemplo, a cidade de Registro (SP) recebeu 120 mudas, que começaram a ser retiradas na última terça-feira (28), após três meses de exposição (veja acima).
🌫️Conhecida como barba-de-velho, as bromélias têm pequenos tricomas, que são estruturas semelhantes a pelos. Durante a exposição, eles acumulam partículas e metais presentes na atmosfera, como chumbo, cobre e cádmio.
🔬Depois de alguns meses, as plantas são coletadas e analisadas em laboratório para identificar e quantificar esses contaminantes, que são extremamente tóxicos para a saúde humana e para a biodiversidade urbana.
Bromélia monitorando a qualidade do ar em Registro, SP
Rinaldo Rori/TV Tribuna
O trabalho com as bromélias está sendo realizado nas cidades de Registro, Cubatão, São Paulo, São Carlos, São José dos Campos, Lorena, Campinas, Campo Grande, Maringá, Santarém, Arapiraca e Maceió. A iniciativa é do professor Maurício Lamano Ferreira, da Escola de Engenharia da USP.
Objetivo do estudo
Além da poluição do ar com as bromélias, os pesquisadores de universidades e prefeituras das cinco regiões do país coletam outros dados ambientais e de saúde, como arborização urbana via satélite, temperatura, risco de desastres, indicadores sociais e diagnóstico preditivo de doenças crônicas.
"A ideia é simples: produzir conhecimento aplicado que ajude cidades a se tornarem mais saudáveis, resilientes ao clima e socialmente mais justas", afirmou Natália, listando os principais objetivos do estudo:
➡️Entender como o verde urbano mitiga poluição, calor, saúde e desigualdades;
➡️Testar no Brasil a regra 3 - 30 - 300, que consiste em garantir que cada pessoa veja pelo menos três árvores de sua casa, que cada bairro tenha ao menos 30% de cobertura arbórea, e que todos vivam a uma distância máxima de 300 metros de uma área verde;
➡️Identificar áreas historicamente mais vulneráveis, ambiental e socialmente;
➡️Apoiar a criação de políticas públicas mais eficazes e baseadas em ciência.
Bromélias sendo ensacadas em Registro, SP
Rinaldo Rori/TV Tribuna
A professora destacou que os dados científicos serão usados para orientar as políticas públicas brasileiras. Ao longo do processo, os resultados são discutidos com gestores e sociedade, auxiliando o Plano Nacional de Arborização Urbana, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Resultados
O projeto está em fase de coleta de dados em várias cidades, então os resultados finais ainda não estão consolidados. No entanto, a professora afirmou que as análises preliminares já mostram padrões consistentes e relevantes.
"Por exemplo, em um dos estudos já conduzidos, observamos que áreas com menor cobertura vegetal apresentam maior ocorrência de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes. Em contraste, bairros próximos a áreas verdes qualificadas tendem a apresentar menor carga dessas doenças", afirmou Natália, que é responsável pela parte de saúde do estudo.
Bromélia monitorando a qualidade do ar em Registro, SP
Rinaldo Rori/TV Tribuna
Além disso, os resultados sugerem que existe um nível mínimo de arborização urbana necessário para proteger a saúde da população. De acordo com a doutora, esse valor está próximo de 30% de cobertura vegetal nos bairros, o que converge com recomendações internacionais recentes.
"Em termos práticos, isso reforça uma ideia central do projeto: a vegetação urbana não deve ser vista apenas como elemento paisagístico, mas como uma infraestrutura essencial de saúde pública, especialmente em áreas mais vulneráveis", finalizou a professora.
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