'Eu pensava que ele estava salvando a minha mãe, mas estava matando ela', diz filha que viu enfermeiro injetar desinfetante até paciente morrer

  • 26/01/2026
(Foto: Reprodução)
Fantástico conversa com familiares dos pacientes que morreram em hospital no DF A reconstituição feita pela perícia, obtida pelo Fantástico, detalha a sequência de atos que levaram à morte de dois pacientes no Hospital Anchieta, no Distrito Federal. Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, estava internada com uma constipação e era considerada clinicamente estável. Ela sofreu quatro paradas cardíacas antes de morrer — todas causadas por substâncias injetadas pelo técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos, segundo a perícia. “Eu pensando que ele estava salvando a minha mãe, ele estava matando cada vez mais a minha mãe”, relata Kássia Leão, filha de Miranilde. Na manhã de 17 de novembro, câmeras do hospital registraram Dona Miranilde consciente e conversando. Cerca de uma hora depois, Marcos Vinícius acessou o sistema usando a senha de médicos que não estavam no hospital, segundo a perícia, para registrar a prescrição de cloreto de potássio — substância controlada que não tinha sido prescrito para a paciente. Após buscar o medicamento na farmácia da UTI, o técnico aplicou a primeira injeção em Miranilde. Ela sofreu uma parada cardíaca, foi reanimada pela equipe e sobreviveu. “Primeira questão, ela não tinha indicação médica de uso dessa substância, em nenhum dos exames ou do quadro clínico que ela apresentava. Um grande dano que ele pode causar o organismo são as arritmias cardíacas graves. A depender da concentração que é feita, a depender da velocidade que é feita, ele para o coração”, diz Alexandre Amaral, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira do DF. Cerca de 40 minutos depois da primeira injeção, o técnico aplica o medicamento uma segunda vez. Neste momento, ela sofre a segunda parada cardiorespiratória. Dona Miranilde é socorrida novamente pela equipe e sobrevive. Cássia e os irmãos estavam no hospital e acompanharam a agonia da mãe. “Cada reanimação ele aplicava alguma coisa até mesmo na frente dos médicos e ninguém percebia nada.” Marcos Vinícius volta ao leito de dona Miranilde e mais uma vez aplica uma injeção que provoca a terceira parada cardíaca e mais uma vez ela é salva pela equipe. Depois da aplicação do desinfetante Dona miranilde sofre a quarta parada cardíaca. Em seguida, ele injeta desinfetante novamente e Dona miranilde morre. “Nossa família ela está destruída”, diz Cátia. 'Eu pensava que ele estava salvando a minha mãe, mas estava matando ela', diz filha que viu enfermeiro injetar desinfetante até paciente morrer Reprodução/TV Globo Outras vítimas Ainda na noite do dia 17 segundo a investigação o técnico faz mais duas aplicações de cloreto de potássio em João Clemente e também injeta desinfetante. Ele morre na madrugada do dia seguinte. A terceira vítima foi o carteiro Marcos Raimundo Moreira, Internado no Hospital Anchieta, no dia 18 de novembro, com suspeita de pancreatite. Segundo a polícia, ele sofreu uma segunda parada em primeiro de dezembro e morreu depois de receber uma injeção de Marcos Vinícius. Investigação Segundo as investigações, Marcos Vinicius contou com a ajuda de outras duas técnicas de enfermagem, que também estão presas. A polícia apura agora se há outras vítimas. O hospital abriu uma sindicância para investigar o que aconteceu no dia 17 de novembro, quando dois pacientes tiveram paradas cardíacas à tarde e morreram horas depois. A sindicância apontou que as mortes tinham relação direta com dois técnicos de enfermagem: Marcos Vinicius Silva Barbosa de Araújo e Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos. Dias depois, a apuração interna identificou a presença de uma terceira pessoa nos dias das mortes: a técnica de enfermagem Amanda Rodrigues de Sousa, de 28 anos. “Ele, toda vez que injetou alguma medicação na veia dos pacientes, em segundos elas apresentaram paradas cardíacas”, diz o delegado Wislley Salomão. Além da medicação, o técnico injetou uma segunda substância: um desinfetante. Até então, a polícia acreditava que Marcos Vinicius havia aplicado desinfetante apenas em Miranilde, que ocupava o leito 24. Mas, ao reanalisar as imagens do leito 25, os peritos descobriram que ele também injetou o produto em João Clemente. Cada leito da UTI é monitorado por uma câmera de segurança. “A consequência disso é um choque circulatório, ou seja, uma pressão muito baixa para esses pacientes, consequentemente uma parada cardíaca imediata”, afirma o presidente da Associação de Medicina Intensivista Brasileira, Alexandre Amaral. Prisões O técnico está preso temporariamente na carceragem do complexo da Polícia Civil do Distrito Federal. Em depoimento, primeiro negou os crimes, mas depois foi confrontado com as imagens das câmeras da UTI e admitiu as mortes. “No depoimento, ele foi uma pessoa que não demonstrou emoção. Ele alegou que teria praticado os crimes porque o hospital estava muito movimentado. Como essa justificativa não é plausível, ele deu uma segunda justificativa, falando que estaria aliviando a dor dos pacientes. Isso também não é uma motivação. Então nós precisamos aprofundar para saber o real motivo que fez com que ele e essas duas técnicas cometessem esse crime”, diz Salomão. As técnicas Marcela e Amanda foram levadas para a penitenciária feminina. “As duas presenciam o técnico injetando tanto a medicação quanto o produto diretamente na veia dos pacientes e não fizeram nada para impedir aquele resultado”, afirma o delegado. Em nota, a defesa de Marcos Vinicius não negou a acusação, mas informou que vai se manifestar apenas no inquérito, que corre sob sigilo. A defesa de Marcela da Silva afirma que ela lamenta o que aconteceu com as vítimas e que a dignidade dela e a verdade serão restabelecidas no processo. O advogado de Amanda de Sousa disse que ela e Marcos Vinicius tiveram um relacionamento. “Ela se sente assim: manipulada por ele. E isso não quer dizer que ela tenha cooperado em nada com ele. Ela diz manipulada porque ela teve um relacionamento com ele”, afirma o advogado Liomar Santos Torres. “Nega participação e nega as acusações, e nós vamos provar isso ao final do processo.” Em nota, o Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal afirmou estar preocupado com a repercussão do caso e disse que generalizações prejudicam uma categoria formada por profissionais éticos e comprometidos com a vida. Já o Hospital Anchieta afirmou que "se solidariza com os familiares das vítimas e repudia veementemente os atos criminosos investigados". O hospital disse ainda que os atos foram conduta individual de criminosos, praticada à revelia do estabelecimento, dos valores da medicina e da assistência em saúde, rapidamente identificada, investigada e neutralizada, com o imediato acionamento das autoridades competentes. O técnico de enfermagem Marcos Vinicius Silva Barbosa de Araújo TV Globo/Reprodução Veja a reportagem completa no vídeo abaixo: Mortes no hospital no DF: Fantástico teve acesso ao relatório da perícia Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. 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FONTE: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/01/26/eu-pensava-que-ele-estava-salvando-a-minha-mae-mas-estava-matando-ela-diz-filha-que-viu-enfermeiro-injetar-desinfetante-ate-paciente-morrer.ghtml


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