Jovem em situação de rua há 3 anos compra casa depois de vídeo sobre abuso sexual viralizar no Rio
08/03/2026
(Foto: Reprodução) Jovem em situação de rua compra casa depois de vídeo sobre abuso sexual viralizar no Rio
Uma jovem que vivia há mais de 3 anos em situação de rua conseguiu dar entrada em uma casa no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio, depois que um vídeo em que ela fala sobre a vulnerabilidade de mulheres nas ruas viralizou nas redes sociais.
A gravação foi publicada pela atriz e comunicadora Anaterra Oliveira, que tem mais de 600 mil seguidores, e alcançou mais de 8 milhões de visualizações.
Patrícia Cruz, de 28 anos, vive há duas semanas uma mudança que esperava há anos: conseguiu sair das ruas. Ela diz que até um quarto com banheiro já seria suficiente, já que ter um lugar para dormir, se alimentar e se abrigar seria uma grande conquista.
A mudança na vida da jovem começou em janeiro, quando ela foi abordada pela atriz e comunicadora Anaterra Oliveira para gravar um vídeo contando como é ser mulher em situação de rua. Na entrevista, ela contou que foi abusada sexualmente anos antes, em Duque de Caxias.
“O carro parou, e eu me aproximei achando que era comida. Ele me jogou dentro do carro, não sei como ele fez aquilo tão rápido, e me levou para a Reduc. Lá, ele cometeu tudo que cometeu, me abusou, me agrediu. Eu fui abandonada nua, porque ele ficou com a minha roupa, na Rio-Petrópolis de madrugada”, lembra Patrícia.
Patrícia Cruz dando entrevista para Anaterra Oliveira
Redes sociais
Com medo de que o homem voltasse, ela conta que correu até encontrar uma casa. Ela pulou o muro e pediu ajuda para a dona da casa. Patrícia acionou a polícia e fez o boletim de ocorrência, mas conta que foi recebida com hostilidade na delegacia.
“Imagina, de madrugada, eu mulher naquela situação, e os policiais, homens, debochando”, relembra.
Patrícia nunca chegou a fazer corpo de delito — o exame é essencial para ajudar a identificar o agressor e a violência sofrida. Foi essa história que ela contou para a comunicadora Anaterra e tocou uma multidão de pessoas. Muitas quiseram ajudá-la com doações.
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Patrícia Cruz na casa dela
Gustavo Wanderley/g1
Através do vídeo, a jovem recebeu pouco mais de R$ 30 mil em transferências bancárias. Ela conta como descobriu:
“Tinha um homem em Copacabana que sempre me dava R$ 20 para descarregar o carro dele na praia. Nisso, ele perguntou se podia me mandar em PIX e eu fiquei até com raiva porque ia precisar ir ao banco. Quando eu conferi o saldo e vi aquele dinheiro todo, achei que tinha algo errado. Chamei a gerente do banco, pensei em ir até na polícia, mas depois lembrei da entrevista”, relata.
“Eu não tinha acreditado quando a Anaterra disse que as pessoas iam me ajudar, sabe? Não estava esperando isso. E foi tudo muito rápido. O vídeo já estava postado há dias quando eu descobri o dinheiro, porque eu estava sem celular”, conta.
Patrícia Cruz na laje da sua casa no Complexo do Lins
Gustavo Wanderley/g1
Com o dinheiro, ela comprou um telefone para conseguir se comunicar e enviou agradecimentos para a atriz que a entrevistou. Em seguida, já começou a se movimentar para sair da rua.
“Eu falei com a minha família, contei para a minha mãe, meu irmão, minha avó e disse que queria mudar, queria sair da rua. A primeira coisa que eu fiz foi falar com a presidente da Associação [do Complexo do Lins] e com o dono dessa casa, pedindo ajuda para alugar um canto”, relata.
A saga de Patrícia não foi fácil: ela precisava pagar uma dívida de drogas que tinha com traficantes. Ela conta que o proprietário da casa foi quem a ajudou e incentivou.
“O dono dessa casa aqui me ajudou muito. Ele falou: ‘Patrícia, eu vou te vender essa casa’. Eu disse assim: ‘Você vai me vender essa casa?’. Eu ainda não tô nem acreditando porque tá tudo sendo muito rápido, muito rápido”, comemora.
“Eu costumo dizer que Deus escreve certo por linhas tortas e tem aquele clichê: ‘Deus move o mundo para quem tem fé nele’. E Deus moveu o mundo para mudar a minha história”.
Patrícia Cruz na casa dela
Gustavo Wanderley/g1
Formação acadêmica e vício
Patrícia tem cursos técnicos de estética, massoterapia e designer de sobrancelhas e micropigmentação. Formada no ensino médio, ela trabalhou por cerca de 3 anos na área de formação.
Ela chegou a ter seu próprio estúdio de atendimento, em Caxias, onde morava e trabalhou em uma clínica em Botafogo por 1 ano. Ela perdeu tudo por causa do vício em drogas e acabou na rua.
“Eu perdi tudo, deixei tudo para trás, e ainda corro o risco de perder a guarda da minha filha mais nova, que confiei a duas pessoas nesse período”, lamenta.
Patrícia tem três filhos: um menino de 10 anos e duas meninas, uma de 6 anos e outra de 1.
“Eu sempre tive meus altos e baixos, desde a adolescência, mas é uma coisa que eu não aceito. Não aceito mesmo, sempre que eu tenho uma força de lutar contra, eu luto, eu saio disso. Eu me arrependo muito, eu perdi muita coisa por causa do vício”, completa.
Patrícia Cruz na laje da sua casa no Complexo do Lins
Gustavo Wanderley/g1
Atualmente, Patrícia está em tratamento psicológico para lidar com a dependência. “Eu tô nesse foco, eu não quero cair de novo, quero seguir forte e limpa como eu estou”.
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A comunicadora que fez o vídeo disse ao g1 que ver a mudança na vida das mulheres entrevistadas é gratificante.
“Foi um combustível e uma forma de ressignificar meu trabalho, que outras pessoas possam ter a oportunidade e o cuidado que merecem. Espero poder fazer isso por mais pessoas. Tem sido lindo ver que muitas vezes o que falta na vida de uma pessoa é a oportunidade. Imagina só se mais pessoas tivessem mais oportunidades, como o mundo seria?”, afirma Anaterra.
Vulnerabilidade feminina na rua
Patrícia conta algumas das dificuldades que enfrentou, até mesmo para ir ao banheiro ou tomar banho.
“Já teve uma vez que eu passei a noite toda segurando a urina. Porque de noite, vazia, qualquer coisa dizem que você está se oferecendo”.
“Eu procurava sempre estar em um lugar bem público, tomava banho de roupa mesmo, em posto de gasolina, lugar movimentado, com segurança. Para fazer xixi, tem que abaixar na rua, eu sempre ia para lugar mais escondido. Tem que ter muito cuidado dependendo do horário”, relembra.
Questionada se não tinha medo de ser atacada sexualmente de novo, ela disse que o medo era extremo.
“Eu morria de medo. A gente, quando tem uma vida social normal, tem casa, trabalho, a gente não sabe o mundo obscuro que tem do lado de fora, o que as pessoas passam, o que os moradores de rua passam. É estupro, covardia, uma vez queimaram meu colchão comigo. Tem gente que tem o simples prazer de te matar”, pontua.
A falta de casa, nessas horas, era brutal. “Eu não via a hora de estar nesse momento, perto da minha vó, com a minha mãe, meus irmãos, meus filhos. Era a única coisa que eu pensava a cada segundo”, afirma.
Para Anaterra, publicar histórias como essa nas redes sociais foi um modo de trazer luz para uma questão que é urgente, a luta pelo direito das mulheres.
“Outro ponto é que quando falamos sobre vulnerabilidade feminina, mulheres em situação de rua vivem isso ao extremo. Então, que a luta e o combate a violência contra a mulher sejam em todos os níveis, e não só para mulheres que se encaixam em uma certa camada social”, pontua a comunicadora.
Família de mulheres fortes
Patrícia apontando para a casa da avó, no Lins
Gustavo Wanderley/g1
Patrícia conta que boa parte da infância passou sob os cuidados da avó enquanto a mãe trabalhava como empregada doméstica. A presença e o carinho da avó foram fundamentais para que ela não sucumbisse às drogas.
“A força da minha avó é inexplicável. Ela nunca fechou a porta na minha casa, sempre me deu conselho e está sempre sorrindo, me dizendo que vai dar certo, que está tudo bem. É uma pessoa que sofre de insônia, tem síndrome do pânico. Então, ela troca o dia pela noite e ela passa a noite toda conversando comigo. Tinha dia que ela passava a noite em ligação comigo para eu não usar”, relembra.
A avó, segundo ela, está radiante com a compra da casa, mas ainda não teve a oportunidade de conhecê-la pessoalmente porque precisa cuidar do filho — tio de Patrícia — que é especial e tem medo de deixá-lo sozinho na comunidade.
Dona Gina também cria o filho mais velho dela desde a maternidade, quando ela perdeu a guarda do menino por causa do vício.
“Quando eu me restabeleci e pedi ele, ela me pediu com lágrimas nos olhos para não tirar ele dela porque é a felicidade da casa. Lá é só ela, meu tio e meu filho”, conta.
“Eu estou ao lado de mulheres fortes. A minha vó, que é uma super mulher, minha mãe que é uma super-mãe, e eu, que estou me sentindo a mulher maravilha”, destaca.
Casa que a Patrícia Cruz comprou no Complexo do Lins
Gustavo Wanderley/g1
O futuro de Patrícia
A jovem está em busca de um emprego para enfim conseguir, de fato, restabelecer sua independência financeira. Embora tenha dado entrada na casa, as parcelas financiadas com o proprietário ela pagará com o auxílio Bolsa Família.
Para se manter, ela precisa de um trabalho. Patrícia está em busca de algo formal, mas disse que pretende atender as clientes de estética em um quarto da casa enquanto não consegue voltar ao mercado de trabalho.
“Daqui a 1 ano eu me enxergo com meu espaço de volta. Eu não sei se eu tô sonhando muito alto, entendeu? Mas eu sonho com espaço de volta atendendo. De tudo que eu sei fazer, gosto mais de trabalhar com massagem e de micropigmentar”, afirma.
Depois de atender no quarto da casa e conseguir juntar dinheiro, ela pretende abrir uma sala de atendimento em uma área melhor localizada da comunidade.
“Eu já me vejo com meu espaço lá embaixo. As pessoas perguntam se eu preciso de alguma coisa e eu respondo que Deus me deu saúde, duas mãos, duas pernas, então eu só preciso de oração para continuar nessa pegada que eu tô de me restabelecer e ficar bem”, pontua.
Olhar humanizado para população em situação de rua
Anaterra defende que muitas vezes pessoas em situação de rua só precisam de uma oportunidade e também a chance de serem ouvidas e acolhidas.
“A verdade é que são pessoas como eu e você, a diferença é a quantidade de traumas e principalmente a relação com a família. Alguns dizem na internet que quem está na rua faz isso por preguiça, falta de força de vontade ou até mesmo por vagabundagem, por isso permitir que cada um conte sua história faz toda a diferença”, afirma.
“Compartilhar esse olhar social com os expectadores e fazer algo pelo outro é, na minha opinião, o mínimo que posso fazer em relação ao mundo. Muita coisa precisa ser feita pra mudar a sociedade, acho que esse já é um bom começo”, completa.
Ela pontua ainda que não se deve “acreditar no discurso de que quem não consegue ‘vencer na vida’ é por falta de esforço, cada um vive uma luta diariamente, cada um tem sua história e suas dificuldades”.
“Olhar com empatia e entender que nem sempre o outro teve as mesmas oportunidades, a mesma criação ou até mesmo as mesmas escolhas que você, faz toda a diferença", diz Anaterra.
"Uma ajuda pode mudar a vida de alguém e nem sempre essa ajuda é financeira, ouvir um desabafo, dar um abraço, olhar de verdade pro outro faz toda a diferença. Seja paciente com você mesmo, com o seu processo, e assim seja também com o outro", acrescentou.